29/03/2009

E agora José?

E agora José? A festa acabou, aluz acabou, o povo sumiu, a noite esfriou. E agora, José? e agora, você? você que é sem nome, que zomba dos outros, você que faz versos, que ama, protesta? e agora, José? Está sem mulher, está sem carinho, está sem discurso, já não pode beber, já não pode fumar, cuspir já não pode, a noite esfriou, o dia não veio, o bonde não veio, o riso não veio, não veio a utopia e tudo acabou, e tudo fugiu, e tudo mofou, e agora, José?
Sua doce palavra, seu instante de febre, sua gula e jejum, sua biblioteca, sua lavra de ouro, seu terno de vidro, sua incoerência, seu ódio – e agora? Com a chave na mão quer abrir a porta,não existe porta; quer morrer no mar, mas o mar secou; quer ir para Minas,
Minas não há mais. José, e agora? Se você gritasse, se você gemesse se você tocasse a valsa vienense, se você dormisse, se você cansasse,
se você morresse... Mas você não morre, você é duro, José! Sozinho no escuro qual bicho-do-mato, sem teogonia, sem parede nua para se enconstar, sem cavalo preto que fuja a galope você marcha, José! José, para onde?




Dontworrybehappy



(Carlos Drummond De Andrade)